De corpos periféricos ao cinema de autorrepresentação: entrevista com Welket Bungué (excerto)

Atualizado: 19 de jan.

Nesta entrevista, o multiartista guineense-português Welket Bungué fala sobre afrodiásporas, trânsitos, novos espaços de poder, (neo)colonialismos, novas fronteiras físicas e culturais, corpos marginalizados e políticos, escolhas estéticas, perspectivas globalizantes e, claro, cinema. Chamam atenção os conceitos de autorrepresentação e corpos periféricos propostos pelo autor, relacionados com suas experiências nos diversos lugares por onde passou e morou (Guiné-Bissau, Portugal, Brasil, Cabo Verde, França, Alemanha). Welket propõe uma desconstrução da ideia de “periférico” e de “autorrepresentação”, indicando que o sujeito periférico tem a capacidade de transitar por diversos espaços e perceber diferentes perspectivas em um mesmo contexto; e a autorrepresentação como uma atitude cívica e artística diante do mundo.


"We Are All Migrants" intervenção/happening realizado no photo call da Berlinale 2020.

"O que eu entendi, ao longo desses anos no Brasil, é que o periférico é aquele que circula, que vai para todo lugar. Se o periférico não chega na zona Sul [zona nobre do Rio de Janeiro] não é porque ele não pode, é porque o impedem de entrar. Diferente do “impostor”, aquele que vive nesse “corpo-centro impostor”, o lugar condicionado como centro econômico, de privilégio, ideológico, comportamental, que seria, na falta de um melhor termo, esta zona dos excessos – não quero levantar aqui uma discussão classicizante. O que eu quero é ajudar a compreender por que o termo “periférico” merece uma desconstrução, no sentido de empoderar os corpos periferizados, uma noção diferente de se ser periférico. Você é “periférico” quando se assume como tal. Você é “periferizado” quando há uma força impostora que está, de alguma maneira, escorraçando você para esta condição. É nesse sentido que eu vejo o “ser periférico” como alguém que transita, e quando ele transita, significa que ele sabe de onde é, mas também sabe para onde pode ir. Aquele que não tiver essa noção de “ser periférico” poderá estar em um lugar, e é justamente esse lugar que ele vai imacular e impedir que todos os outros tomem parte, tornando todos os outros corpos como “periferizados”, impondo que esses tenham que ficar fora do lugar de privilégio, lugar de ostracização do outro. Esse termo periférico é usado no Brasil dessa forma pejorativa porque é convencionado por pessoas racistas, escravagistas, e que forjaram um sentido de nacionalismo brasileiro que não representa grande parte da população que corresponde a mais de 50%, onde se enquadram os cidadãos e cidadãs que se consideram negros afro-brasileiros. Associou-se à ideia de periférico a esses indivíduos que estão majoritariamente habitando zonas limítrofes da cidade, zonas que sofrem de uma maior precariedade e negligência por parte daquilo que é o aparelho público do Estado. Nesse sentido, o periférico [termo discriminatório] deve ser pensado para que nós entendamos que o periférico é aquele que tem a capacidade de ser a força motriz de um país, de sair da dita periferia para chegar no centro, porque ele assim vai transitar. Aquele que não é periférico não sai do centro para ir à periferia e, portanto, não sabe o que é ser periférico, não sabe, ou evita ou esforça-se para não saber o que é um “corpo periferizado”. Este [“ser periférico”] não é um termo que tem uma aplicação sociológica, se trata de uma convenção e uma atitude perante o mundo. Eu acredito que no dia em que não houver fronteiras territoriais nem nacionais, seremos todos periféricos porque iremos entender que as fronteiras vão-se diluir, todas elas. É a única maneira de conseguirmos reinventar a democracia. Tornando-nos todos periféricos." - Welket Bungué


por Ana Camila de Souza Esteves, Jusciele Conceição Almeida de Oliveira, Morgana Gama de Lima | artigo completo

texto publicado em REBECA - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual



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